A Pele

Vitamina C: as cinco formas e o que cada uma entrega

Ácido L-ascórbico, ascorbil glucosídeo, etil ascórbico, ascorbil tetraisopalmitato, MAP. Cinco moléculas, cinco vidas úteis, três promessas distintas no rótulo.

Por Rafaela Torres · 12 min ·

Vitamina C: as cinco formas e o que cada uma entrega

Em 1937, Albert Szent-Györgyi recebeu o Nobel por isolar a vitamina C. Quase noventa anos depois, a indústria cosmética ainda discute como mantê-la estável em frasco. As cinco moléculas que aparecem em rótulos brasileiros não são equivalentes: cada uma tem absorção, estabilidade e eficácia distintas.

TL;DR

  • Ácido L-ascórbico é o ativo padrão da literatura; os derivados são tentativas de resolver sua instabilidade.
  • Não há equivalência direta de concentração entre as formas: dez por cento de L-ascórbico não equivale a dez por cento de etil ascórbico.
  • O veículo, o pH e o tempo desde a abertura do frasco importam mais do que o número impresso na embalagem.

Ácido L-ascórbico: o ativo padrão

Forma biologicamente ativa, com a maior parte da literatura clínica acumulada desde Pinnell, na década de 1990. Penetra no estrato córneo em pH abaixo de três e meio. Em concentrações de dez a vinte por cento, mostra redução consistente de manchas pós-inflamatórias e melhora discreta de fotoenvelhecimento inicial.

A contrapartida é a estabilidade: oxida rapidamente em contato com luz, oxigênio e calor. Veículos modernos com antioxidantes secundários (vitamina E, ferúlico, glutationa) prolongam a vida útil, mas o consumo do frasco aberto dentro de quatro a seis semanas continua sendo a recomendação prática.

Não existe vitamina C estável. Existem fórmulas que disfarçam melhor a oxidação.

Os derivados estáveis e o que eles entregam

Ascorbil glucosídeo

Derivado glicosilado, estável em pH neutro, hidrossolúvel. A enzima α-glucosidase do estrato córneo libera L-ascórbico após a penetração. Eficácia comparável em literatura recente; menos irritante. Aparece em fórmulas asiáticas e em marcas brasileiras de farmácia magistral.

Etil ascórbico (3-O-etil ascorbato)

Etilado na posição três do anel, mantém a função antioxidante e a estabilidade. Lipossolúvel parcial, penetra com facilidade. Cinco por cento de etil ascórbico aproxima resultados clínicos de doze a quinze por cento de L-ascórbico, com tolerância superior.

Ascorbil tetraisopalmitato

Forma lipossolúvel pesada, estável e bem tolerada. Penetração mais profunda, conversão lenta em L-ascórbico. Mais cara, frequente em fórmulas de luxo. Evidência clínica menor, mas crescente em despigmentação leve.

Magnesium ascorbyl phosphate (MAP)

Estável em pH neutro, hidrossolúvel, conversão moderada. Eficácia documentada em clareamento de melasma leve a moderado em estudos de oito a doze semanas. Bem tolerada em pele sensível.

Concentração, pH e os limites práticos

Para L-ascórbico, a janela útil é dez a vinte por cento em pH abaixo de três e meio. Acima de vinte por cento, a literatura mostra aumento de irritação sem ganho proporcional de eficácia. Para os derivados, a faixa terapêutica fica entre dois e cinco por cento — e a métrica de comparação direta com o L-ascórbico ainda é discutida.

Como escolher a forma certa para sua pele

Pele oleosa tolerante: L-ascórbico em pH três, dez a quinze por cento. Pele seca ou sensível: etil ascórbico ou MAP em concentrações de três a cinco por cento, pH neutro. Pele madura: ascorbil tetraisopalmitato em veículo lipídico, ou combinação L-ascórbico + vitamina E + ácido ferúlico.

Perguntas frequentes

O sérum amareleceu — ainda funciona?

Cor levemente amarela em L-ascórbico já significa oxidação parcial. Cor laranja ou marrom indica que o ativo virou ácido dehidroascórbico e perdeu a função antioxidante. Descarte e reponha.

Posso usar todo dia?

Sim, idealmente pela manhã, antes do filtro solar. Pele que nunca usou começa com aplicação dia sim, dia não, na primeira semana.

Vitamina C e niacinamida brigam?

Não. A reação descrita em literatura antiga ocorre em condições laboratoriais não replicadas em veículos cosméticos atuais. A associação é segura.

Referências

  1. Pinnell SR et al. Topical L-ascorbic acid: percutaneous absorption studies. Dermatol Surg. 2001. [link a confirmar]
  2. Telang PS. Vitamin C in dermatology. Indian Dermatol Online J. 2013.[link a confirmar]
  3. Burke KE. Mechanisms of aging and development — a new understanding of environmental damage to the skin. J Investig Dermatol Symp Proc. 2018.[link a confirmar]
  4. Stamford NPJ. Stability, transdermal penetration, and cutaneous effects of ascorbic acid and its derivatives. J Cosmet Dermatol. 2012.[link a confirmar]
Autoria

Rafaela Torres

Editora científica

Química formada pela Unicamp, traduz para o português papers que a indústria preferia que continuassem em inglês.

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