A Ficha Técnica

Pinnell, Duke e a química que virou patente

O dermatologista Sheldon Pinnell estabilizou L-ascórbico em pH baixo com vitamina E e ácido ferúlico no fim dos anos noventa. A patente saiu da Universidade Duke; a história, dos Estados Unidos.

Por Teresa Ferro · 13 min ·

Pinnell, Duke e a química que virou patente

Sheldon Pinnell era professor de dermatologia na Duke University quando, em meados dos anos oitenta, começou a se incomodar com um dado da literatura: a vitamina C era o antioxidante mais potente do plasma humano, mas em cosmético tópico oxidava antes de chegar à derme. A pergunta tinha química, não retórica.

TL;DR

  • Sheldon Pinnell publicou nos anos 1990 o protocolo de estabilização de L-ascórbico que virou a fórmula C-E-Ferúlico.
  • A patente foi depositada pela Duke University em 1999 e licenciada para a Skinceuticals.
  • A combinação 15 por cento de L-ascórbico + 1 por cento de tocoferol + 0,5 por cento de ácido ferúlico permanece o padrão clínico.

O laboratório de Pinnell, em Durham

Departamento de Dermatologia da Duke University, década de 1980. Pinnell estudava envelhecimento cutâneo e tinha acesso a um modelo de pele de porco que reproduzia bem a fisiologia humana. Foi nele que confirmou, em uma série de experimentos, que ácido L-ascórbico só penetra em pH baixo — e que, em pH baixo, oxida em minutos quando exposto a oxigênio atmosférico.

O problema químico que ele decidiu atacar

A vitamina C, em solução aquosa, doa elétron com facilidade. Quando o aceitador é um radical livre, é função antioxidante; quando é oxigênio molecular, é degradação. A pergunta operacional era: como retardar a segunda sem matar a primeira?

A ciência cosmética dos anos noventa não era cosmética. Era fotoquímica vestida de dermatologia.

A entrada do tocoferol

Vitamina E em concentração lipídica regenera o L-ascórbico oxidado por um mecanismo de transferência eletrônica em ciclo. Em paper de 1997, Pinnell demonstra que a combinação aumenta em quatro vezes a fotoproteção em pele de porco exposta a UVB.

A fórmula 15 + 1 + 0,5

O ajuste fino veio com o ácido ferúlico, antioxidante extraído do farelo de arroz. Em concentração de meio por cento, estabiliza tanto a vitamina C quanto a vitamina E e duplica o fator de proteção combinado. A fórmula final — quinze por cento de L-ascórbico, um por cento de tocoferol, meio por cento de ácido ferúlico em pH três — saiu como artigo no Journal of Investigative Dermatology em 2005.

A patente, o licenciamento e o que veio depois

A Duke University depositou patente em 1999 com Pinnell como inventor principal. A licença exclusiva foi para a Skinceuticals, que lançou o C-E-Ferúlico em 2005 — e o vendeu, desde então, em mais de cem mil unidades por ano só nos Estados Unidos. Pinnell morreu em 2013, sem assistir à popularização brasileira do produto.

Hoje, a fórmula está em domínio público em jurisdição brasileira — a patente não foi depositada localmente na época, segundo registros do INPI. Marcas nacionais oferecem versão homóloga por menos de um terço do preço da original.

Perguntas frequentes

Vale comprar a fórmula original?

Para quem prioriza histórico de pesquisa e padronização de lote, sim. Para quem avalia custo-benefício, há equivalentes brasileiros bem formulados a um terço do preço. A diferença clínica em estudos comparativos é pequena.

É possível substituir uma das três moléculas?

Substituir ácido ferúlico por outro antioxidante secundário (resveratrol, glutationa) tem evidência limitada. A combinação original mantém o padrão clínico.

A fórmula funciona em fototipo alto?

Sim, com cautela quanto a irritação inicial. Pinnell incluiu fototipo IV em seus estudos e descreveu eficácia comparável. Fototipo V e VI ainda têm literatura escassa.

Referências

  1. Lin FH, Lin JY, Gupta RD, Tournas JA, Burch JA, Selim MA, et al. Ferulic acid stabilizes a solution of vitamins C and E and doubles its photoprotection of skin. J Investig Dermatol. 2005. [link a confirmar]
  2. Pinnell SR. Cutaneous photodamage, oxidative stress, and topical antioxidant protection. J Am Acad Dermatol. 2003. [link a confirmar]
  3. Burke KE. Interaction of vitamins C and E as better cosmeceuticals. Dermatol Ther. 2007. [link a confirmar]
  4. Duke University. US Patent 7,179,841: Stabilized ascorbic acid composition. 1999. [link a confirmar]
Autoria

Teresa Ferro

Editora de ciência

Bióloga molecular pela UFRJ. Lê estudos clínicos com a mesma minúcia com que outros leem o cardápio.

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