Glicerina vs ácido hialurônico em clima seco: quem ganha
Rafaela Torres · 9 min
O dermatologista Sheldon Pinnell estabilizou L-ascórbico em pH baixo com vitamina E e ácido ferúlico no fim dos anos noventa. A patente saiu da Universidade Duke; a história, dos Estados Unidos.
Por Teresa Ferro · 13 min ·
Sheldon Pinnell era professor de dermatologia na Duke University quando, em meados dos anos oitenta, começou a se incomodar com um dado da literatura: a vitamina C era o antioxidante mais potente do plasma humano, mas em cosmético tópico oxidava antes de chegar à derme. A pergunta tinha química, não retórica.
Departamento de Dermatologia da Duke University, década de 1980. Pinnell estudava envelhecimento cutâneo e tinha acesso a um modelo de pele de porco que reproduzia bem a fisiologia humana. Foi nele que confirmou, em uma série de experimentos, que ácido L-ascórbico só penetra em pH baixo — e que, em pH baixo, oxida em minutos quando exposto a oxigênio atmosférico.
A vitamina C, em solução aquosa, doa elétron com facilidade. Quando o aceitador é um radical livre, é função antioxidante; quando é oxigênio molecular, é degradação. A pergunta operacional era: como retardar a segunda sem matar a primeira?
A ciência cosmética dos anos noventa não era cosmética. Era fotoquímica vestida de dermatologia.
Vitamina E em concentração lipídica regenera o L-ascórbico oxidado por um mecanismo de transferência eletrônica em ciclo. Em paper de 1997, Pinnell demonstra que a combinação aumenta em quatro vezes a fotoproteção em pele de porco exposta a UVB.
O ajuste fino veio com o ácido ferúlico, antioxidante extraído do farelo de arroz. Em concentração de meio por cento, estabiliza tanto a vitamina C quanto a vitamina E e duplica o fator de proteção combinado. A fórmula final — quinze por cento de L-ascórbico, um por cento de tocoferol, meio por cento de ácido ferúlico em pH três — saiu como artigo no Journal of Investigative Dermatology em 2005.
A Duke University depositou patente em 1999 com Pinnell como inventor principal. A licença exclusiva foi para a Skinceuticals, que lançou o C-E-Ferúlico em 2005 — e o vendeu, desde então, em mais de cem mil unidades por ano só nos Estados Unidos. Pinnell morreu em 2013, sem assistir à popularização brasileira do produto.
Hoje, a fórmula está em domínio público em jurisdição brasileira — a patente não foi depositada localmente na época, segundo registros do INPI. Marcas nacionais oferecem versão homóloga por menos de um terço do preço da original.
Para quem prioriza histórico de pesquisa e padronização de lote, sim. Para quem avalia custo-benefício, há equivalentes brasileiros bem formulados a um terço do preço. A diferença clínica em estudos comparativos é pequena.
Substituir ácido ferúlico por outro antioxidante secundário (resveratrol, glutationa) tem evidência limitada. A combinação original mantém o padrão clínico.
Sim, com cautela quanto a irritação inicial. Pinnell incluiu fototipo IV em seus estudos e descreveu eficácia comparável. Fototipo V e VI ainda têm literatura escassa.
Teresa Ferro
Editora de ciência
Bióloga molecular pela UFRJ. Lê estudos clínicos com a mesma minúcia com que outros leem o cardápio.